Um projeto de investigação artística que parte da imagem do bicho-da-seda, inspirado na poesia de Misuzu Kaneko. Esta residência servirá de ponto de partida para um álbum de canções de embalar para adultos que não conseguem dormir.
O projeto explora a figura da mulher e a sua autonomia, abordando a depressão e o suicídio em culturas tão distintas como a japonesa e a ocidental. Com uma motivação profundamente pessoal, a obra nasce da perda de um amigo e mentor, procurando processar o luto e o isolamento através da linguagem artística.
金子みすゞの詩と蚕のイメージに触発された芸術研究プロジェクト。このレジデンスは、眠れない大人たちのための「子守唄」のアルバム制作に向けた出発点となります。本プロジェクトは、女性像とその自立を探求し、日本と西洋という異なる文化におけるうつ病や自殺というテーマに向き合います。自ら命を絶った恩師への個人的な想いを発端に、芸術という言語を通じて、喪失感と孤独を昇華させる道を模索します。
Durante a residência artística em Tóquio, de 21 de março a 4 de maio de 2026, foquei-me na pesquisa para o projeto Kaiko 蚕 Silkworm, que se centra na ligação entre o sono e a morte, explorando as suas ramificações poéticas e humanas.
O trabalho assentou numa dedicação diária à poesia e à música, tendo como ponto de partida 17 poemas de Misuzu Kaneko previamente selecionados com ajuda da minha professora de japonês, Jun-san. Dediquei dois dias a cada poema: o primeiro focado na leitura e tradução (para português e inglês), e o segundo na exploração livre para a busca de palavras-chave no ambiente circundante.
A maioria dos dias começou no café Flow's, perto do Paradise Air, onde fiz as minhas primeiras amizades: o Yasu, gerente do café, e a Karin, barista. Sentei-me quase sempre na mesma mesa, pedi o pequeno-almoço e fui traduzindo os seguintes poemas:
Misuzu Kaneko
• 星とたんぽぽ (Hoshi to Tanpopo) – As Estrelas e o Dente-de-leão
• 私と小鳥と鈴と (Watashi to Kotori to Suzu to) – Eu, o Passarinho e o Sino
• 明るい方へ (Akarui Hou e) – Para o Lado Luminoso
• このみち (Kono Michi) – Este Caminho
• こだまでしょうか (Kodama deshou ka) – Será um Eco?
• みんなを好きに (Minna wo Suki ni) – Gostar de Tudo
• 大漁 (Tairyō) – Grande Pesca
• 弁天島 (Bentenjima) – Ilha de Benten
• 不思議 (Fushigi) – Maravilha
• 美しい町 (Utsukushii Machi) – A Bela Cidade
• 蜂と神さま (Hachi to Kamisama) – A Abelha e Deus
• こころ (Kokoro) – O Coração
• 濱の石 (Hama no Ishi) – Os Seixos da Praia
• さびしいとき (Sabishii Toki) – Quando Me Sinto Só
• さくらの木 (Sakura no Ki) – A Cerejeira
• 女の子 (Onnanoko) – A Menina
• 誰がほんとを (Dare ga Honto wo) – Quem Sabe a Verdade?
Dos textos que fui traduzindo surgiram palavras-chave e outros impulsos que me levaram a explorar Tóquio à procura de inspiração. O primeiro lugar foi o cemitério de Aoyama, que visitei depois de conhecer a flautista Miya, que me desenhou um mapa para lá chegar.
Sentada no cemitério, fui prestando atenção aos sons em meu redor, às cores, aos animais e às pessoas. Escrevi os meus pensamentos, li os pensamentos de outras pessoas e troquei impressões, num japonês muito básico, com uma senhora que admirava os pássaros verdes que cantavam numa árvore de sakura. Às 17:00, ouviu-se através dos altifalantes uma canção que me levou à primeira field recording (gravação de campo).
O encontro com esta senhora no cemitério fez-me refletir sobre a barreira linguística e o pouco tempo disponível para a desfazer, mas também sobre como os meus ouvidos estavam mais atentos e sensíveis do que nunca.
Passados meses desse encontro, ainda me lembro da sua voz, do seu ritmo e da alegria que dela emanava, bem como de algumas palavras isoladas que fui apanhando.
Decidi, então, pedir às pessoas que ia encontrando para me gravarem a leitura dos poemas, permitindo-me ouvi-los enquanto os traduzia. Começámos com a equipa do Paradise Air.
Conhecer a flautista Miya foi uma parte importante da minha residência no Japão.
Ela recomendou-me várias pessoas para entrar em contacto, o que me levou a lugares inesperados, a concertos, a conhecer o compositor Tomomi Adachi e vários outros músicos, e a assistir aos meus primeiros concertos de Noise.
Levou-me também a conhecer o seu marido, Yoshihiko Hogyoku, que é poeta e monge budista. Eles foram muito generosos e convidaram-me para jantar na sua casa no dia 1 de Abril, data que coincide com o aniversário do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa.
Para assinalar o momento, fizemos uma pequena improvisação comigo a cantar, o Yoshi a recitar o poema em japonês e a Miya na flauta. O encontro com eles foi profundamente inspirador e a sua generosidade ficará comigo durante muito tempo.
Parti para Senzaki no dia 16 de Abril de 2026 para encontrar Setsuo Yazaki, diretor do museu Misuzu Kaneko e principal responsável pela divulgação e reconhecimento do legado da poeta em todo o Japão.
Durante a viagem fui anotando em detalhe os meus dias num diário de onde de agora em diante vou incluir passagens em itálico.
Ao cumprimentar o Diretor, ele apresentou-me a tradutora e o seu chefe e demonstrou surpresa, tendo a tradutora Shiori Takemoto explicado que ele esperava encontrar um homem. Antes da visita ao espaço que constituiu a antiga residência da poeta, procedeu-se à remoção dos sapatos, dando início ao percurso pelas divisões.
Subimos umas escadinhas estreitas enquanto me foco nas meias do chefe da Shiori. Que intimidade ver as meias de alguém assim de perto. E ver as meias de alguém de fato parece-me ainda mais intimo. Obviamente no Japão é muito natural, mas foi outro pensamento que me assaltou o cérebro.
A entrevista formal teve lugar numa sala decorada com ampliações fotográficas de Misuzu Kaneko e da sua filha. Perante as respostas previamente estruturadas pelo Diretor no computador, pedi para conduzir o diálogo de forma direta, com o Diretor a responder na sua própria voz e a Shiori a assegurar a tradução consecutiva. Estabeleceu-se uma dinâmica de comunicação tripolar, alternando entre o inglês e o japonês.
Contudo, pedi que o guião de respostas elaborado pelo Diretor Setsuo Yazaki me fosse enviado pois apresenta uma perspetiva estruturada sobre o legado e a receção da obra de Misuzu Kaneko, que quis incluir aqui. O museu, erguido no local de uma antiga livraria, propõe uma imersão no ambiente que moldou a autora.
Segundo as suas notas, a poesia de Kaneko promove uma mudança de perspetiva orientada para a coexistência, assente na premissa de que "não existe o eu contra ti, mas o eu por causa de ti", validando o significado intrínseco de cada ser.
O Diretor enfatiza a necessidade de ler as obras em voz alta para ativar os cinco sentidos e aponta o poema As Estrelas e os Dentes-de-leão como o exemplo máximo de que o invisível continua a existir, servindo de conforto para a ansiedade noturna. Esta relevância e sensibilidade emocional explicam a ampla aceitação da poesia no Japão, estando integrada em manuais escolares e sendo aplicada em contextos terapêuticos de cura, como após o sismo de 2011.
No plano biográfico, o Diretor argumenta que a história de vida de um artista não é diretamente necessária para abordar o estigma da saúde mental. Contudo, reconhece o impacto do seu próprio ensaio biográfico na família: ao revelar a verdade por trás do suicídio de Misuzu, permitiu que a filha, Fusae, compreendesse que a mãe tinha agido para a proteger e não para a abandonar, transformando a sua perspetiva de vida.
Quanto à divulgação da obra, o Diretor explica que as publicações foram deliberadamente interrompidas durante cerca de dez anos após o poema A Grande Pesca, o seu favorito. Este hiato serviu precisamente para evitar que o drama pessoal da autora moldasse ou enviesasse as interpretações da sua poesia. Por fim, assinala que a coletânea encerra com A Escalada da Montanha pelo Gafanhoto, um texto que reflete uma exaustão inédita análoga ao fim da vida da poeta, e manifesta o desejo institucional de que esta obra sirva de plataforma universal de ligação e diálogo entre o público japonês e o internacional.
A conversa que tivemos foi muito mais livre que o guião inicial previa e pode ser escutada no video em baixo. Mas gostaria de destacar neste texto alguns momentos da conversa alguns momentos que ficaram comigo.
Sentada à frente do Diretor Yazaki, fiz as perguntas em inglês a olhar para ele. Ele respondeu em japonês a olhar para mim, e a Shiori foi traduzindo enquanto olhávamos para ela. Este triângulo levou a conversa a lugares muito interessantes, e fomo-nos desviando e regressando ao script naturalmente. Quando falamos sobre o suicídio de Misuzu, eu disse algo do género: she wrote 512 poems in such a short period of time, can you image how many more we could read if she only had lived longer? A resposta do Diretor Yazaki foi curiosa, pareceu-me quase ofendido. A Shiori traduziu: he is almost 80 years old and he didn’t write 200 poems even. Misuzu was very special, it’s very rare to find a poet that writes like this.
A conversa trouxe-me a lugares onde ainda não tinha ido. O Diretor Yazaki falou sempre de Misuzu como se ela estivesse na sala. Sobre a felicidade dela ao receber a minha visita, como fica contente por saber que alguém de longe lê as suas palavras e tem curiosidade sobre ela, e sobre como ela continua a viver dessa forma em todas as pessoas que entram naquele lugar. Fosse uma questão de barreira linguística ou não, este aspeto da conversa tocou-me profundamente. Saí de lá a pensar sobre a forma como até agora vi a morte como o contrário da vida. Naquela sala sentia-se a vida de Misuzu Kaneko. A morte dela, foi o oposto inevitável do seu nascimento, e o seu suicídio, a forma como morreu. A sua vida, contudo, é enorme, e é presente.
Após a sessão de entrevista, seguiu-se uma visita detalhada ao acervo do museu, que inclui registos fotográficos familiares, correspondência do período escolar e material audiovisual com o testemunho da filha de Misuzu, que no video teria mais de 90 anos.
O Diretor Yazaki ofereceu-me várias publicações, incluindo a coletânea completa da autora. Perguntei-lhe ainda que lugar de Senzaki deveria visitar para compreender melhor a poesia daqueles livros e a resposta imediata foi Ojiyama Park.
Depois disso, ele quis levar-me ao Ojiyama Park, e a Shiori levou-nos até lá de carro. À chegada, uma floresta de bambus altos fazem uma cortina contra o vento. O som é impressionante. Subimos as escadas devagarinho e lá em cima temos a vista completa de Senzaki. Na entrevista, o Diretor Yazaki tinha dito se podia segurar na vila com as māos lá de cima, e agora estávamos os dois a fazer uma conchinha com as mãos, como se fossemos levantar a vila da água. O vento soprava forte, e os meus caracóis e os cabelos prateados do Diretor Yazaki dançavam cada um ao seu estilo, enquanto víamos a vista deslumbrados.
No percurso de regresso, o Diretor apresentou a visitante à comunidade local como cantora de ópera portuguesa, recebendo uma simpatia imensa em retorno de todas as pessoas. O Diretor convidou-me para jantar, mas infelizmente a Shiori não poderia ficar. Perante a ausência de tradução, o Diretor não demonstrou preocupação, afirmando que comunicaríamos heart to heart (de coração para coração).
Na rua, encontrámos uma habitante local que, ao tomar conhecimento do propósito da visita, ofereceu um exemplar da coleção de poemas de Misuzu Kaneko dedicados a pássaros. Como agradecimento pelo gesto, mas também pela oportunidade de apoio mútuo, uma vez que a senhora falava inglês, o Diretor convidou-a para se juntar ao jantar.
O Diretor Yazaki perguntou se ela se gostaria de juntar para jantar connosco, ela aceitou o convite, mas tinha de passar em casa antes. Entretanto fomos lentamente em direção ao restaurante, e quando ela regressou estava vestida a rigor com um elegante Kimono, e eu ainda toda pegajosa de andar de bicicleta.
No final do jantar despedimo-nos. Quis dar-lhe um abraço mas estendi-lhe a mão. E lá foi ele com os cabelinhos ao vento em direção ao seu hotel, e a senhora de Kimono para a sua casa.
A viagem continuou de Senzaki para Hiroshima, Miyajima, Naoshima, Teshima e finalmente Kyoto.
Em Miyajima conheci finalmente em pessoa a Junko, a minha professora de japonês.
Durante o caminho fui ampliando a lista de gravações de poemas e field recordings, ficando no final este mapa.
A eletrónica para a peça Kodama, que foi apresentada dia 25 de abril de 2026 no evento de encerramento da minha residência na Embaixada de Portugal no Japão, foi desenvolvida inteiramente durante esta viagem e, assim, inevitavelmente impregnada da felicidade que estes lugares me trouxeram.
Deixo aqui uma passagem do meu diário no dia em que estive em Naoshima:
Ao aproximar-me do museu, senti-me quase como num remix de lugares artísticos do mundo: pessoas lindas, bem-vestidas, diversas e interessadas ouviam frases soltas em várias línguas, desde inglês, alemão, francês, e o jardim que se estendia ao lado do museu faria qualquer jardim parisiense corar. O museu está embutido na paisagem da ilha, então foi difícil antecipar o que quer que fosse.
A energia ao entrar no Chichu Art Museum é impressionante. Todas as pessoas estavam muito conscientes do quão especial é aquele lugar e tratavam-no em conformidade. Poucas palavras se escutavam. As paredes de betão realçam a natureza em redor como sal na comida. Um campo verde e umas escadas, pessoas que tiram as últimas fotografias antes de serem obrigadas a guardar as suas câmaras e um corredor rachado que amplifica qualquer sussurro. O edifício deixa claro desde o início que não há lugar para segredos ali dentro; a cada passo pelos corredores do museu senti uma peça de roupa metafórica a desaparecer do meu corpo. Desci as escadas até chegar a um mar de pedras no fundo de uma abertura em triângulo para o céu. Um bunker a citar a superfície da lua que não me atrevi a pisar.
Na parede escrito: Walter de Maria.
Segui as indicações até encontrar uma senhora vestida de branco com instruções: proibido fotografar e tocar nos objetos expostos. Ao passar a porta, uma imponente esfera de mármore negro olha para mim no topo de umas escadas. Uma gravidade enorme emanava naquele objeto, como se estivesse a sentir o funeral de todas as pessoas que me morreram até agora condensado numa ova de peixe gigante reluzente. Fiquei parada à porta largos minutos a observar, como quem olha para um corpo morto, mas à medida que me fui aproximando, o reflexo das escadas no mármore negro começou a devolver-me um sorriso carregado de ironia. Não era um corpo morto, mas uma energia concentrada numa pedra que arrancou um respeito e reverência que não sabia ter em mim naquele momento.
Tomei o meu tempo e observei aquele objeto quase sobrenatural de várias perspetivas. Vi-me engolida por uma lente fish eye. O sarcasmo e ironia que vinha da esfera não me assustaram, senti aquilo de tudo com naturalidade. A vida também está frequentemente carregada de coisas difíceis de explicar, de tensão, sarcasmo e humor; sentir-me gozada por uma bola de mármore foi inesperado, mas bem-vindo. Os pilares dourados espalhados pela sala fizeram-me lembrar tubos de órgão numa igreja, o que só reforçou a solenidade daquele momento denso. Saí daquela sala pronta para o resto do museu, saí pela mesma porta e subi as escadas.
Na parede escrito: Claude Monet.
Antes de entrar na sala, outra pessoa vestida de branco indicou-me que devia tirar os sapatos. Calcei umas pantufinhas e comecem a andar no chão mais satisfying de sempre. Inúmeros cubinhos do tamanho de dados perfeitamente alinhados formam o chão daquela sala. Ao olhar em frente, um grupo de pessoas estava parada à entrada e, à medida que me fui aproximando e que consegui ver o primeiro quadro, percebi imediatamente que ia passar a maioria do tempo naquela sala. Quis aproveitar a vista do hall escuro até ter coragem de entrar. Do tecto, uma luz natural branca e pálida iluminava os quadros milagrosamente, o maior deles perfeitamente enquadrado pela
entrada da sala. Quando finalmente entrei e vi os restantes quadros, um calor enorme a assaltou-me o peito. É difícil descrever o que senti sem soar pedante, mas a minha alma, que já estava rachada antes de ir para o Japão, sentiu-se inundada pela água dos water lilies. Senti os reflexos da luz cor-de-rosa das bochechas ao peito, e o azul escuro a afundar-se em mim. Aqueles quadros jorraram por todas as brechas, pelos meus olhos, pelo nariz, pela boca.
Tudo me pareceu irrelevante à frente daqueles quadros. Não há propósito maior que a arte. Não há amor maior, nada mais importante. E ela é sinónimo da humanidade. Nada é maior que a humanidade, esse bem e mal infinitos, fonte de horrores e crueldade, de bondade e gentileza sem fim. Senti-me à frente disto tudo. Senti-me em frente do dilema enorme que é ser-se capaz do melhor e do pior de igual forma, e senti que por mais que olhasse para aqueles quadros, no segundo em que desviasse o olhar e a eles voltasse, era sempre como se nunca os tivesse visto antes, apesar de estar a olhar para eles há 30 minutos. Não conseguia desviar o olhar nem conter a emoção que me apanhou completamente de surpresa. Um deslumbramento vivido num loop constante com uma emergência assoberbante.
Pensei nos homens e no seu talento infinito para estragar tudo pelos motivos errados, e nos homens que, apesar disso tudo, criam com as suas mãos obras de arte duma sensibilidade e beleza capazes de me desfazer e querer ser enterrada ali mesmo, naquela ilha remota. Não conseguia parar de chorar, tanto que o meu corpo a ficou tão tenso e qualquer ruído me irritava profundamente, até que ressoou na sala um reverberante estalido do meu maxilar.
Precisava de uma pausa.
Saí da sala para me recompor e respirar. Escondi-me uns minutos atrás da porta de saída. Coloquei tampões de ouvidos e voltou a entrar.
Desta vez senti-me imersa neles. Na água pantanosa do meu próprio corpo. E outra vez chorei, chorei sem parar durante pelo menos 1h, até que olhei à minha volta e a sala estava vazia. Fiquei só eu e aqueles quadros finalmente. E a eles quero voltar, sempre que a minha alma se rachar, para me relembrar do porquê de tudo o que faço e de tudo em que acredito.
Na parede escrito: James Turrell.
Quando consegui finalmente despedir-me dos quadros de Monet, encontrei o oásis do James Turrell, uma espécie de átrio com uma abertura para o céu no meio do museu. Dependendo da meteorologia da ilha, aquela abertura oferece um quadro diferente a quem ali se senta. O céu estava nublado, violentamente branco. O quadro reservado para mim naquele dia foi recebido como uma chapada de luz a entrar-me pelos olhos, mas lentamente fui-me habituando. Estive sentada, depois deitada, e fui sentindo o sistema nervoso a acalmar. A última peça que pude ver no Chichu Museum foi uma instalação visual. Depois de esperar alguns minutos numa fila, mais pessoas vestidas de branco pediram a quem ali estava para tirar os sapatos antes de entrar no espaço da instalação. Cerca de 10 pessoas puderam entrar comigo e alinharam-se no topo de umas escadas onde se podia ver uma luz azul a iluminar uma sala enorme, e foi-nos pedido que seguíssemos as instruções da assistente. Como havia uma criança no meu grupo e ainda me sentia assoberbada, mantive os tampões de ouvidos e fui seguindo a linguagem corporal do grupo. Fomos
entrando pela sala adentro como se nos estivéssemos a afundar naquele azul escuro mas tão vibrante. Senti-me como se estivesse no escuro, mas na verdade era uma luz imensa, tanto que fiquei consciente do meu pestanejar quando ele transitou de imperceptível para interrupções vermelhas de tanta luz que atravessava as minhas pálpebras.
Se já me sentia no limite dos meus sentidos, aquela última peça fez-me transbordar. Nunca chorei assim na minha vida como naquele lugar. Fui até ao jardim e escrevi uma mensagem ao David, que quando me recomendou o museu comentou como se tinha emocionado aqui. Senti quase como se fôssemos a mesma pessoa a viver vidas alternativas na mesma timeline. Como se no dia em que ele foi a Naoshima, o universo tivesse deixado o pedal de delay ligado e, anos depois, fragmentos das lágrimas dele nadassem nas minhas. Senti-me infinitamente grata por ele.
Quando já tinha chorado tudo, comecei a prestar atenção aos pássaros que se faziam ouvir pela ilha e fiz algumas gravações para me tentar ancorar ao presente. Saí do Chichu Museum como quem sai dum treino de boxe, positivamente exausta. Fui buscar a minha bicicleta e vi um gatinho no estacionamento a quem dei umas festinhas como se estivesse a dar festinhas aos meus gatinhos. Desci a encosta de bicicleta sem saber bem para onde ir ou o que fazer e fui sentar-me ao pé do mar.
Kodama 木霊 (2026)
Escultura e colagem sonora
Fazendo as pazes com a impossibilidade de compreender a língua, a minha pesquisa no Japão focou-se na materialidade sonora da poesia. Esta peça estabelece um diálogo entre vozes e lugares através do mapeamento do som enquanto presença. O ritmo das vozes que, generosamente, leram poemas para mim ao longo da minha estadia foi isolado eletronicamente, ativando pontos específicos de field recordings que pontuaram a paisagem quotidiana desta residência.
Do ruído frenético do Pachinko que se escuta à entrada do Paradise Air aos pássaros do cemitério de Aoyama; do ranger dos barcos no cais em Toyosu ao coro de cigarras, sapos e bêbedos em Senzaki, até aos pássaros no Chichu Museum, em Naoshima. Cada som é uma coordenada do tempo que passei aqui, um gatilho de memórias e sensações, e o processo literal pelo qual passei para compreender os poemas de Misuzu Kaneko.
Neste processo de pesquisa sobre os assuntos que me tiram o sono, encontrei vida a habitar todas as coisas, até as mais inesperadas. A morte surgiu não como o oposto da vida, mas como o oposto inevitável do nascimento. A vida, essa, permanece sem contrário, ressoando através de tudo o que nos envolve.
A alma sonora que se foi formando à volta destes textos exigiu-me um corpo. Assim apareceu Kodama, numa presença frágil, tosca e suspensa. Um artefacto de plástico e fios, materiais de embalar, um casulo, uma alforreca, um lugar inacabado onde se sentar, lixo. Uma espécie de escultura que me ajudou a escutar.
Embaixada de Portugal no Japão
25 de Abril 2026
Andrea Conangla, soprano, curadora, compositora improvisadora e encenadora, é reconhecida pela sua excecional agilidade vocal, presença cénica distintiva e sensibilidade musical.
A sua agenda artística reflete uma visão coerente e inconfundivelmente pessoal que abrange a interpretação historicamente informada, a ópera contemporânea desafiante e projetos colaborativos.
アンドレア・コナングラは、ソプラノ歌手、キュレーター、即興音楽の作曲家および演奏者であり、その卓越した声質と舞台上の強烈な存在感、そして豊かな音楽的感性によって高く評価されています。また、その芸術活動は、歴史的知見に基づく解釈から、挑戦的な現代オペラ、学際的な協働プロジェクトに至るまで、一貫した独自の芸術観を体現しています。